Não é preciso ter fascínio por cozinha nem gastronomia para apreciar “Chef’s Table”, a série-documentário cuja segunda temporada a Netflix estreou no dia 27 de maio. A produção de David Gelb (do magistral “O Sushi dos Sonhos de Jiro” ) trata de personagens excepcionais e, sobretudo, identidades nacionais.

“Meu episódio é muito convergente com a identidade do meu país, porque não fala da cozinha, ele parte do ingrediente; não parte de um cozinheiro, mas de uma rede de homens que se une em favor do nosso deleite, que é comer”, disse Alex Atala, tema do segundo episódio desta temporada

E é verdade. A trajetória de Atala, das pescarias na infância à juventude punk rock e à descoberta da cozinha —e como ele evoluiu em suas criações—, é retratada nos pouco mais de 50 minutos com a mesma força que se mostra sua busca incessante por ingredientes e gente que entenda deles.

O episódio sobre o brasileiro retrata não só sua cozinha, no D.O.M., mas uma força da natureza, instintiva e criativa. E eis aí a genialidade de Gelb na condução da série: ele filma comida porque comida é cultura, mas o produtor encontrou, em seus personagens e na construção de suas trajetórias, reflexos perfeitos de cada identidade nacional.

Por isso, o capítulo sobre o americano Grant Achatz, do Alinea (Chicago), é sobre reinvenção e espetáculo —complementando o de seu compatriota Dan Barber (Blue Hill, Nova York), na primeira temporada, sobre obsessão e liderança. O do risonho mexicano Enrique Olvera, do Pujol, é sobre ancestralidade e o encontro da fartura na aridez.

Talvez o melhor desta temporada, o episódio da eslovena Ana Ros (a chef autodidata que abriu seu Hisa Franko no idílico mas isolado vale do rio Soča) fala com delicadeza da superação do pequeno, às vezes invisível, para se tornar grande, mesmo que não grandioso.

Também ganharam capítulos Dominique Crenn (a lírica franco-americana do Atelier Crenn, San Francisco) e o indiano Gaggan Anand (do Gaggan, em Bancoc, Tailândia).

“Chef’s Table” triunfa sobre a filmografia e a bibliografia do gênero por evitar clichês e encontrar não apenas chefs brilhantes, cujos perfis já foram reescritos por aí, mas pessoas com histórias particularmente interessantes, que, por traços mais ou menos sutis, conseguem refletir uma cultura nacional.

Não estão na tela os obstáculos genéricos da profissão, as cozinhas em que reinam gritos e pressão, exaustivamente repetidos em realities shows de gastronomia. Mas estão os fracassos e sucessos humanos, a busca por respostas, a narrativa de superação muito mais comuns na literatura do que na cobertura que celebra a gastronomia.

Atala, que passou 20 dias percorrendo o país com a equipe de filmagem, fala de seus momentos obscuros com drogas, assim como a nipo-americana Niki Nakayama (N/Naka, Los Angeles) contava, na primeira temporada, de sua agonia para convencer a família japonesa de que ela, mulher, era uma chef capaz.

Haverá mais duas temporadas, uma de quatro episódios neste ano, sobre franceses, outra de seis em 2017. Em um meio retratado a partir de egos e sucessos, é bom enxergar seres humanos e o que os forja.

Fonte: Folha de SP

 

 

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