O bourbon vive seu grande momento. O uísque de milho deixou para trás a fama de bebida rude, coisa de caipira americano, e caiu no gosto – e nas mãos – de jovens e modernos pelo mundo todo. E que ninguém se engane pelas mãos hipsters ou tatuadas: dentro do copo que seguram há um destilado suave, quase adocicado, com perfume de caramelo e baunilha.

Tecnicamente, o bourbon é um uísque (ou whisky, ou ainda whiskey, tudo é permitido) feito de pelo menos 51% de milho, destilado a no máximo 80% de álcool, envelhecido por pelo menos dois anos em barricas de carvalho americano novas queimadas. Se amadurecer por menos de quatro anos, sua idade tem de ser indicada no rótulo da garrafa. Corantes ou saborizadores são proibidos. Pronta, a bebida tem cerca de 40% de álcool.

Com esta definição da Associação das Destilarias do Kentucky não haverá mais erros. Até bem pouco tempo atrás, havia quem duvidasse que bourbon fosse uísque. Mas isso é compreensível, porque como explica o especialista Jim Murray, autor do maior guia de uísques publicado atualmente, The Whisky Bible, o bourbon deixa as pessoas confusas. Não vai longe o tempo em que só o uísque escocês, feito de malte de cevada ou de grãos como o trigo ou o centeio, era reconhecido por todos e considerado uísque de verdade.

Havia uma aura de preconceito a respeito do bourbon, visto como uma bebida menor, sem sofisticação ou elegância. Mas esqueça isso porque, como diz Murray, “ele é feito de grão e maturado em barril de carvalho. Então, não pode ser nada diferente de uísque”.

Nos Estados Unidos, esse tipo de uísque, praticamente morto nos anos 80 e 90, ressuscitou no começo dos anos 2000, chegando ao ápice em 2014, quando as destilarias do Kentucky, que produzem cerca de 95% da bebida, contavam com cerca de 5,7 milhões de barris, recorde em mais de 40 anos.

A comunidade hipster americana, também afeita a cervejas artesanais, tem sua dose de responsabilidade nessa história ao preferir produtos locais. O bourbon, em 1964, foi declarado o mais americano dos destilados. E tem mais: a série de TV Mad Men – aquela mesma que provocou a febre dos coquetéis e cujo protagonista tinha uma preferência especial por Old Fashioned – também pesou.

O que leva a outra chave para entender o “bourbon boom” (como é chamado o fenômeno nos EUA): a ascensão da coquetelaria em todo o mundo e o caráter versátil do bourbon, um ingrediente combinável com praticamente tudo. Para os fabricantes e importadores, uma das explicações para o sucesso do destilado no Brasil é a paixão dos brasileiros pela cultura americana.

Mas, por aqui, ainda é raro alguém pedir o destilado puro – ele é mais usado como ingrediente. “Quem bebe puro acaba pedindo scotch”, conta Spencer Jr., barman do bar Frank. No SubAstor, o bourbon já é o segundo destilado mais vendido em coquetéis, atrás apenas do gim, segundo o bartender Fabio de La Pietra. Eduardo Jarussi, sócio do Cateto, tem uma perspectiva diferente: o coquetel é a porta de entrada, mas, uma vez que se pega intimidade com o destilado, o consumidor quer experimentar diferentes rótulos puros ou com gelo para diferenciar as nuances de sabor.

Enquanto nos Estados Unidos novas destilarias pipocam por todo o território (inclusive em Nova York e na Flórida) e começam a mudar o perfil da bebida com mais ousadia na produção, no Brasil marcas consagradas e de estilo tradicional crescem sem barreiras.

É o caso da Maker’s Mark e da Jim Beam, que estão há dez anos no país, mas só nos últimos dois anos foram descobertas. Hoje, são as que mais crescem entre as consideradas premium por sua detentora, a Beam Suntory Brasil.

Nem o dólar desfavorável barrou a entrada de gigantes como o Woodford Reserve, que fez sua estreia brasileira com investimentos pesados no começo do ano passado, contratando bartenders como “embaixadores” da marca e com ações de marketing em bares. O Wild Turkey adotou estratégia semelhante quando chegou, em 2014, com masterclasses e eventos focados em bartenders, profissionais que fazem a ponte com o público-alvo desejado, o de maior poder aquisitivo.

Mas para os bebedores da turma do “antes é que era bom” pode fazer pouco sentido ver uma bebida historicamente associada a caipiras do sul dos Estados Unidos ser tratada como algo sofisticado e cosmopolita. “O mercado não pode sofisticar o bourbon, é um álcool simples, de matéria-prima barata”, diz Eduardo Jarussi, do Cateto.

A imagem do bourbon, aliás, é um ponto crucial para Fred Minnick, autor de Bourbon Curious: a Tasting Guide to the Savvy Drinker. No livro, o pesquisador do Kentucky critica o fato de as marcas estarem mais preocupadas com o nome na garrafa do que com o líquido que colocam dentro dela.

Fonte: Paladar