Já parou para pensar o porquê de nós, no Brasil, comermos alguns alimentos e outros não? Ou de sermos conhecidos como um país tropical cheio de variedades de frutas e as mais consumidas não serem originarias daqui? Pois é, para quem não sabe, as clássicas banana, laranja, maça e pera têm sua origem em outros continentes. Sim, nenhuma é de origem puramente nacional.

Mas então o que tem origem em terras brasileiras? Alguns dos alimentos nativos do nosso país que todo mundo conhece são a mandioca, cacau, amendoim, erva mate, palmeira, mamão, abacaxi, batata doce e inhame. Mas em um território tão diverso, por que em todas as casas todo mundo come a mesma saladinha?

De milho criolo a espinafre do amazonas, uma série de espécies originais brasileira

De milho criolo a espinafre do amazonas, uma série de espécies originais brasileira

Não é exótico, é PANC!

Antes de entrar nesta questão, vale lembrar que tem uma infinidade de produtos que, dependendo do Estado, são consideradas tradicionais ou PANC, as Plantas Alimentícias Não Convencionais. O que pode parecer exótico no sul, é padrão nas mesas do norte do país. O jambu é um exemplo disso. A folha e flor com propriedades anestésicas – aquele que treme, sabe? – é uma das bases da comida paraense. Já no nordeste, biribiri é uma fruta que faz muito sucesso nas caipirinhas. Nenhuma das duas é vendida em larga escala no sul ou sudeste. Nada menos exótico do que o que é tradicional na nossa mesa.

Os biólogos Valdely Kinupp e Harri Lorenzi compilaram 10 anos de trabalho em um grande catálogo de plantas que poderiam estar na nossa mesa mas não estão pela simples falta de costume. O fato é que das 400 mil espécies de plantas que existem no mundo, cerca de 300 mil são comestíveis. Porém nós consumimos normalmente apenas cerca de 200. No livro “Plantas alimentícias não convencionais (PANC) no Brasil: guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas” tem pelo menos 350.

A colorida capuchinha

A colorida capuchinha

Nós não necessariamente escolhemos comer pouca diversidade. Nessa vida de cidade grande, comemos o que está à disposição e já sabemos cozinhar. O consumo de PANC parte também de uma demanda de mercado. O que não vende, não será produzido. O trabalho de Kinupp e Lorenzi é um pequeno passo para mudar essa realidade, mas ainda quando vamos ao mercado não encontramos Ora-Pro-Nobis, Bertália, Peixinho – salvo nos lugares muito especializados. Vale conhecer o livro e ver que, além das espécies, tem uma série de receitas mostram como usar toda essa diversidade e sair da monotonia alimentar. Tem uma entrevista linda com Kinupp aqui no Hyepeness.

Com vocês, a linda Peixinho da Horta

Com vocês, a linda Peixinho da Horta

Diversidade = Sustentabilidade

Em 2015, aconteceu em Paris a 21ª Conferência das Partes (COP-21) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). Nela, 195 nações, incluindo o Brasil, se comprometeram a combater as mudanças climáticas, como o aumento da temperatura global. Uma das questões abordadas no acordo foi a água. Precisamos restaurar áreas florestais para ter a continuidade deste recurso essencial – isso chama recarga hídrica. O desafio hoje é restaurar 30 milhões de hectares no mundo todo. O Brasil assinou por 2 milhões e meio de hectares e o estado de SP em torno de 30 mil.

Vamos finalmente fazer uma viagem à Fazenda Coruputuda e ligar os pontos nessa história toda. A ideia é que se possa incentivar o produtor rural a ter um sistema produtivo e ao mesmo tempo fazer o serviço ambiental. “A gente cria modelos produtivos com pelo menos 30 espécies que possam ser compensatórias economicamente para o produtor. Deve-se ter biodiversidade de plantas, frutas nativas de ciclo curto, árvores. Como muita gente desconhece frutas como a uvaia, o bacupari, entre outras nativas da mata atlântica, não basta oferecer o modelo de plantio, tem que estruturar o mercado”, explica Patrick Assumpção. Ele faz parte da 4ª geração da família que toca a fazenda, mas a primeira a trabalhar com agrofloresta.

Patrick e sua floresta

Patrick e sua floresta de Guanandi

“O Brasil é o maior exportador e criador de tecnologias de produtos tropicais. Infelizmente a gente quase não consome produtos tropicais. A gente continua consumindo trigo, que é europeu, soja, milho que até é daqui, mas é transgênico. E o trabalho que a gente faz hoje, junto com a secretaria do meio ambiente e órgãos estaduais, é o planejamento de áreas para restauração florestal biodiversa. O sistema de agrofloresta neste caso é o mais indicado”, conta.

Plantas nativas x Mercado

Como convencer um produtor rural que é melhor ele ter uma biodiversidade maior e um modelo de produção que não agrida a natureza se ninguém conhece e portanto não consome esses produtos? Usando nosso poder de consumidor! Daí entro eu aqui te contando que tem muitos vegetais deliciosos e muito mais nutritivos do que os que a gente come normalmente à nossa disposição. Precisamos conhecer e pedir essas espécies na feira, no sacolão, nos mercadinhos de orgânicos. Só assim vai ter sentido para um produtor cuidar da terra de forma diversa e vender produtos nativos do Brasil.

“Então temos que criar soluções atrativas ao produtor, que é dono do solo, e que isso faça sentido. Para fazer sentido, precisamos criar um mercado. Isso tudo em um país que não consome sua própria biodiversidade”. Voltamos à questão. Por que, para início de conversa paramos de consumir o que é nosso?

Um desses fatores está no termo commodities. Elas nada mais são do que produtos que têm seu valor determinado pela oferta e demanda internacional – pouco importa quem produziu ou de onde saiu. Dentro dos vegetais, a soja é o maior representante, portanto ocupa grande parte do nosso território. O esquema é: vai vender certeza, então vamos produzir sem limites, ainda que não seja bom para o solo nem para a água do entorno. Outro fator importante é que nosso modelo de mercado vem dos Estados Unidos ou da Europa.

“A ‘dieta-global’ é o resultado de uma cadeia de produção-distribuição-consumo globalizada, em que nem os agricultores, nem os consumidores contam. Pensamos que decidimos o que comer, mas isso não acontece”, escreveu Esther Vivas Esteves no livro “O negócio da comida ”. Fechamos o ciclo. Compramos o que tem já nos grandes mercados e nada muda. “O consumidor é o maior transformador das visões e dos costumes. Se começar a consumir, novos costumes serão criados. Estamos em um processo de transição, mas ainda muito tímido”, diz Patrick.

O Instituto Coruputuba hoje é um local de capacitação técnica para produtores rurais em sistemas produtivos agroflorestais. A pessoa que tem uma terra e planta só eucalipto, por exemplo, hoje não consegue um bom preço na madeira. Fazendo um sistema de agrofloresta, além de variedades de vegetais e PANC, é possível plantar madeiras nobre que têm um valor muito maior de mercado. Todo mundo ganha. Lá também são produzidos produtos orgânicos variados e cestas que são entregues em São Paulo uma vez por semana. Nela vem da maça à peixinho, da mandioca à caruru.

Fazenda Coruputuba

Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba

Da horta para o prato

Uma coisa puxa a outra e nós, como consumidores, precisamos começar a nos informar e aproveitar da nossa biodiversidade. A arquiteta paisagista com especialização em preservação ambiental, Renata Outubo, trabalha a produção em larga escala dos alimentos orgânicos da Fazenda Coruputuba. Essa ação é orientada pela Dra. Cristina Castro da APTA (Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios) em Pindamonhangaba. Paralelamente, ela trabalha com a parte de segurança alimentar e conscientização do valor nutricional das plantas. “Como a gente levava para a feira e não havia consumo, por que as pessoas não conheciam, a gente leva as plantas, os chefs e mostra o preparo. Assim desperta o interesse”.

A cúrcuma, ou açafrão da terra, por exemplo é anti-inflamatório, anti-oxidante. A Ora-Pro-Nobis tem muita proteína. O legal disso tudo é que você se alimenta na sazonalidade e ainda escolhe os alimentos mais potentes para sua alimentação. Alguns produtos podem virar conservas lindas e nutritivas. A capuchinha, que tem folha redondinha e flores coloridas, já é um pouco conhecida, mas até sua semente é aproveitada – é tipo uma alcaparra brasileira. O próprio milho criolo vira também uma conserva.

Bolo de ora-pro-nóbis - flor e folha!

Bolo de ora-pro-nóbis – flor e folha!

Conserva de semente de capuchinha, vinagreira e milho criolo

Da semente à conserva

Da capuchinha, tudo se aproveita

Ainda dentro das ações em parceria com a fazenda, as prefeituras de Pindamonhangaba e de São José dos Campos oferecem oficinas para que as pessoas conheçam melhor cada espécie e saibam como usá-las na cozinha. Temos de flor à raiz para comer cada dia um prato mais diferente que o outro. Basta abrir a mente – e a boca, claro.

Fonte: Hypeness

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